ANTES DE DESAPARECER
O perigo raramente entra na história quando o reconhecemos. Normalmente já lá estava quando decidimos continuar.
A ÚLTIMA SESSÃO
A rapariga da fila sete só se levantou quando os créditos terminaram.
O ecrã já estava preto. As luzes laterais tinham subido devagar, revelando copos vazios, guardanapos amachucados e pipocas esmagadas debaixo das cadeiras.
Mesmo assim, ela continuava sentada.
Leonor esperava no corredor central com um saco do lixo numa mão. A rapariga teria pouco mais do que a idade dela. Mantinha as mãos sobre os joelhos e olhava em frente, para o próprio reflexo perdido no ecrã.
Leonor pensou em perguntar se estava tudo bem.
Antes que o fizesse, a rapariga levantou-se, vestiu o casaco e passou por ela sem dizer nada.
Deixou um pacote de gomas fechado no suporte do copo.
— Há pessoas que vêm ao cinema para sofrer — disse Lara, surgindo no fundo da sala com uma vassoura. — E ainda pagam por isso.
O telemóvel de Leonor vibrou.
Mãe.
Ignorou a chamada.
Quando saiu pela passagem de serviço, o parque tinha apenas três carros. O de Lara. O do segurança. E um terceiro, no extremo oposto, debaixo de uma lâmpada que acendia e apagava sem estabilizar.
Leonor não sabia a quem pertencia.
NÃO. VOU A PÉ.
Lara destrancou o carro à distância.
Os faróis piscaram duas vezes.
— Entra.
Leonor ajustou a mala no ombro.
— Não é preciso.
— Não te estou a convidar para viver comigo. Levo-te a casa.
— Ficas no lado contrário.
— São dez minutos.
— E depois tens de voltar.
— Leonor.
Ela tocou no brinco esquerdo com a ponta do indicador. Só reparava no gesto quando alguém olhava para a mão.
Lara olhou.
Leonor baixou o braço.
— Quero andar um pouco.
— A esta hora?
— Já fiz este caminho.
— Durante o dia.
— Também já o fiz à noite.
— Sozinha?
O tom irritou-a. Não era agressivo. Aproximava-se demasiado do tom da mãe. Cuidado transformado numa pergunta que parecia já conter a resposta certa.
— São vinte minutos.
— Disseste dez.
— De carro.
Lara abriu a porta, mas não entrou.
— Manda mensagem quando chegares. Não quando estiveres quase. Quando entrares.
Leonor sorriu.
— Sim, mãe.
Lara não sorriu de volta.
O carro afastou-se. Durante dois segundos, Leonor distinguiu as luzes traseiras.
Depois ficou sozinha.
O centro comercial já não era visível quando ouviu um motor ligar-se atrás do edifício.
Não olhou.
Há decisões que só parecem perigosas
depois de já terem sido tomadas.
O MESMO PASSO
A rua comercial deixava de parecer comercial depois das dez. As montras estavam apagadas. Grades metálicas cobriam lojas que, durante o dia, vendiam roupa, óculos e capas de telemóvel.
Leonor conhecia a rua sem conhecer quase nenhum dos espaços. Sabia onde o passeio levantava junto à pastelaria. Qual das luzes da farmácia piscava. Que a loja de animais deixava aceso um aquário vazio durante a noite.
Retirou um dos auscultadores.
Não porque tivesse ouvido alguma coisa.
A rua parecia pedir menos música.
Junto a uma papelaria, alguém colara uma folha branca no vidro:
ABERTO EM EXCESSÃO
Leonor parou.
Leu novamente.
— Claro.
Retirou o telemóvel e fotografou o erro. Atrás do aviso, parcialmente coberto por outros papéis, havia um cartaz antigo. A chuva fizera escorrer a tinta junto a um dos olhos da mulher fotografada.
Por baixo, ainda se liam algumas palavras:
VISTA PELA ÚLTIMA VEZ
A música terminou.
No pequeno silêncio antes da faixa seguinte, os passos ficaram mais claros.
Leonor manteve os olhos no ecrã.
Esperou.
Nada.
Retomou a marcha.
Os passos também.
Ao passar por uma garagem, o som dos próprios pés mudou. O passeio liso deu lugar a pequenas pedras quadradas.
Os passos atrás também mudaram.
Leonor abrandou.
O intervalo entre os sons diminuiu.
Voltou ao ritmo anterior.
O intervalo regressou.
A avenida tinha prédios dos dois lados. Em quase todos havia janelas acesas.
Leonor contou-as.
Dezanove.
Sabia que havia pessoas ali.
Nenhuma sabia que ela estava em baixo.
À PORTA
A rua de casa tinha mais luz do que se lembrava.
Leonor viu a entrada do prédio e acelerou. Os passos atrás aceleraram também.
Retirou o telemóvel da mala.
Dois por cento.
A mãe estava a ligar novamente.
Atendeu.
— Onde estás?
— À porta.
— À porta de casa?
— Sim.
— Entra primeiro.
Leonor colocou a chave na fechadura. Atrás dela, uma passagem metálica separava dois edifícios.
Ouviu uma pequena vibração.
Olhou.
A passagem estava entreaberta.
Leonor tinha a certeza de que estivera fechada.
Ou pensava ter.
A luz do prédio iluminava apenas parte do interior. Depois da abertura havia um corredor estreito, caixas de eletricidade na parede e um contentor encostado ao fundo.
Nada se movia.
— Leonor?
— Sim.
— Abre a porta.
Leonor tentou rodar a chave.
Não rodou.
Tinha escolhido a errada.
Olhou para o molho.
A luz do telefone iluminava-lhe os dedos.
Um por cento.
— Espera.
— O que foi?
— Nada.
Ouviu metal atrás.
A abertura parecia maior.
Leonor encontrou a chave correta.
Atrás dela, os passos recomeçaram.
Quando voltar a abrir os olhos, já não haverá janelas.
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Cerca de 240 páginas · português (Portugal) · acesso digital.