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AMOSTRA AUTORIZADA // SEM REGISTO

Ainda
Estás Aí?

Esta obra contém temas de rapto, confinamento, coerção psicológica e violência não gráfica. Esta amostra termina imediatamente antes de Leonor desaparecer.

O som ambiente é opcional e nunca começa automaticamente. O progresso fica apenas neste dispositivo.

AMOSTRA // QUATRO FRAGMENTOS

ANTES DE DESAPARECER

O perigo raramente entra na história quando o reconhecemos. Normalmente já lá estava quando decidimos continuar.

FRAGMENTO 01

A ÚLTIMA SESSÃO

A rapariga da fila sete só se levantou quando os créditos terminaram.

O ecrã já estava preto. As luzes laterais tinham subido devagar, revelando copos vazios, guardanapos amachucados e pipocas esmagadas debaixo das cadeiras.

Mesmo assim, ela continuava sentada.

Leonor esperava no corredor central com um saco do lixo numa mão. A rapariga teria pouco mais do que a idade dela. Mantinha as mãos sobre os joelhos e olhava em frente, para o próprio reflexo perdido no ecrã.

Leonor pensou em perguntar se estava tudo bem.

Antes que o fizesse, a rapariga levantou-se, vestiu o casaco e passou por ela sem dizer nada.

Deixou um pacote de gomas fechado no suporte do copo.

— Há pessoas que vêm ao cinema para sofrer — disse Lara, surgindo no fundo da sala com uma vassoura. — E ainda pagam por isso.

O telemóvel de Leonor vibrou.

Mãe.

Ignorou a chamada.

Quando saiu pela passagem de serviço, o parque tinha apenas três carros. O de Lara. O do segurança. E um terceiro, no extremo oposto, debaixo de uma lâmpada que acendia e apagava sem estabilizar.

Leonor não sabia a quem pertencia.

FRAGMENTO 02

NÃO. VOU A PÉ.

Lara destrancou o carro à distância.

Os faróis piscaram duas vezes.

— Entra.

Leonor ajustou a mala no ombro.

— Não é preciso.

— Não te estou a convidar para viver comigo. Levo-te a casa.

— Ficas no lado contrário.

— São dez minutos.

— E depois tens de voltar.

— Leonor.

Ela tocou no brinco esquerdo com a ponta do indicador. Só reparava no gesto quando alguém olhava para a mão.

Lara olhou.

Leonor baixou o braço.

— Quero andar um pouco.

— A esta hora?

— Já fiz este caminho.

— Durante o dia.

— Também já o fiz à noite.

— Sozinha?

O tom irritou-a. Não era agressivo. Aproximava-se demasiado do tom da mãe. Cuidado transformado numa pergunta que parecia já conter a resposta certa.

— São vinte minutos.

— Disseste dez.

— De carro.

Lara abriu a porta, mas não entrou.

— Manda mensagem quando chegares. Não quando estiveres quase. Quando entrares.

Leonor sorriu.

— Sim, mãe.

Lara não sorriu de volta.

O carro afastou-se. Durante dois segundos, Leonor distinguiu as luzes traseiras.

Depois ficou sozinha.

O centro comercial já não era visível quando ouviu um motor ligar-se atrás do edifício.

Não olhou.

Há decisões que só parecem perigosas
depois de já terem sido tomadas.

FRAGMENTO 03

O MESMO PASSO

A rua comercial deixava de parecer comercial depois das dez. As montras estavam apagadas. Grades metálicas cobriam lojas que, durante o dia, vendiam roupa, óculos e capas de telemóvel.

Leonor conhecia a rua sem conhecer quase nenhum dos espaços. Sabia onde o passeio levantava junto à pastelaria. Qual das luzes da farmácia piscava. Que a loja de animais deixava aceso um aquário vazio durante a noite.

Retirou um dos auscultadores.

Não porque tivesse ouvido alguma coisa.

A rua parecia pedir menos música.

Junto a uma papelaria, alguém colara uma folha branca no vidro:

ABERTO EM EXCESSÃO

Leonor parou.

Leu novamente.

— Claro.

Retirou o telemóvel e fotografou o erro. Atrás do aviso, parcialmente coberto por outros papéis, havia um cartaz antigo. A chuva fizera escorrer a tinta junto a um dos olhos da mulher fotografada.

Por baixo, ainda se liam algumas palavras:

VISTA PELA ÚLTIMA VEZ

A música terminou.

No pequeno silêncio antes da faixa seguinte, os passos ficaram mais claros.

Leonor manteve os olhos no ecrã.

Esperou.

Nada.

Retomou a marcha.

Os passos também.

Ao passar por uma garagem, o som dos próprios pés mudou. O passeio liso deu lugar a pequenas pedras quadradas.

Os passos atrás também mudaram.

Leonor abrandou.

O intervalo entre os sons diminuiu.

Voltou ao ritmo anterior.

O intervalo regressou.

A avenida tinha prédios dos dois lados. Em quase todos havia janelas acesas.

Leonor contou-as.

Dezanove.

Sabia que havia pessoas ali.

Nenhuma sabia que ela estava em baixo.

FRAGMENTO 04

À PORTA

A rua de casa tinha mais luz do que se lembrava.

Leonor viu a entrada do prédio e acelerou. Os passos atrás aceleraram também.

Retirou o telemóvel da mala.

Dois por cento.

A mãe estava a ligar novamente.

Atendeu.

— Onde estás?

— À porta.

— À porta de casa?

— Sim.

— Entra primeiro.

Leonor colocou a chave na fechadura. Atrás dela, uma passagem metálica separava dois edifícios.

Ouviu uma pequena vibração.

Olhou.

A passagem estava entreaberta.

Leonor tinha a certeza de que estivera fechada.

Ou pensava ter.

A luz do prédio iluminava apenas parte do interior. Depois da abertura havia um corredor estreito, caixas de eletricidade na parede e um contentor encostado ao fundo.

Nada se movia.

— Leonor?

— Sim.

— Abre a porta.

Leonor tentou rodar a chave.

Não rodou.

Tinha escolhido a errada.

Olhou para o molho.

A luz do telefone iluminava-lhe os dedos.

Um por cento.

— Espera.

— O que foi?

— Nada.

Ouviu metal atrás.

A abertura parecia maior.

Leonor encontrou a chave correta.

Atrás dela, os passos recomeçaram.

A AMOSTRA TERMINA AQUI

Quando voltar a abrir os olhos, já não haverá janelas.

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Cerca de 240 páginas · português (Portugal) · acesso digital.

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